Agência Rio de Notícias

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Diálogo: Cultura e modernidade no Brasil (Ruben George Olivien) – Mundialização e cultura (Renato Ortiz) e A moderna tradição brasileira (Renato Ortiz)

No Brasil a modernidade é, e sempre foi vista como algo externo, um padrão a ser seguido, alcançado, muito admirado e almejado, ou pelo contrário, considerada com ressalva e/ou receio tanto pelas elites tanto pelo povo, muito embora o Brasil encontre-se em uma situação bastante diferente do que no século passado, muito desse pensamento ainda prevalece. Podemos observar no decorrer de nossa “formação” a importação constante de ideias por parte de nossos intelectuais, que muitas vezes formados na Europa, buscavam utilizar os conceitos, padrões e concepções apreendidos por lá, aqui, tentando adapta-los a realidade “tupiniquim”.
A modernidade confunde-se muitas vezes com a ideia de contemporaneidade, visto que aderir a padrões vigentes nos países mais “adiantados” é muitas vezes entendido como moderno porém esquecemos que contemporaneidade não significa modernidade e sim atualidade, o que é contemporâneo é atual e não necessariamente “moderno”. O pensamento dos intelectuais brasileiros tem sido modificado constantemente no que diz respeito a estas questões, por exemplo em alguns períodos a “cultura brasileira” foi demasiadamente desvalorizada e desmerecida pelas elites, que entendiam os padrões e concepções europeus como exemplo a ser seguido e almejado, entendida como a única sociedade verdadeiramente civilizada na época (eurocentrismo), mais recentemente tentamos nos adequar aos padrões norte-americanos.
Contudo nota-se que em determinados períodos, algumas manifestações da cultura brasileira passam a ser bastante valorizadas, e alguns símbolos nacionais passam a ser exaltados, como por exemplo, o personagem “Macunaíma”, a figura do malandro carioca, o carnaval, o futebol, o samba etc.
Como costumamos aprender nos livros de história do ensino fundamental “a transferência” da família real, da corte portuguesa para terras brasileiras, fez com que o Brasil se tornasse sede da monarquia e vice-reino, visto que não poderiam retornar tão cedo para a “metrópole” temendo o cerco do exercito napoleônico; esta “fuga” da família real, melhor dizendo, acabou contribuindo para que a cidade do Rio de janeiro, onde a corte havia se instalado, obtivesse grande ênfase econômica e política.
Após a independência do Brasil em 1822 ocorreu a abertura dos portos ao comércio exterior, o que ocasionou um grande fluxo de comerciantes e viajantes estrangeiros, devido a esse grande fluxo e principalmente ao estabelecimento da família real na cidade, o Rio de janeiro acabou por tornar-se uma cidade “cosmopolita” onde a “elite” tentava corresponder ao comportamento europeu considerado até então o mais evoluído, civilizado e moderno.
O comportamento europeu copiado pela elite da cidade do Rio de Janeiro diferenciou profundamente a população urbana da população rural e/ ou do campo, não só pelos níveis econômicos, como também pelos padrões culturais, uma vez que a elite adotou o “requinte”, a “sofisticação” e o arremedo da vida intelectual como forma de “distinção”, sendo assim a vida nas cidades mais ricas e com mais “acesso” a cultura europeia tornou-se muito diferente da vida no campo em qualquer que fosse a esfera social, este tipo de imitação comportamental da elite brasileira da época, considerando a cultura europeia como superior e evoluída lembra o conceito da Kultur alemã, aliás, de onde veio a concepção de “Cultura” com letra maiúscula e no singular, que para os mesmos (os alemães) era considerada como a única aceitável e válida, universal.
Em contrapartida alguns intelectuais e uma parcela da elite começaram a valorizar o que seria verdadeiramente brasileiro do ponto de vista cultural, de acordo com Olivien, isso ocorre já na segunda metade do século XIX, com base na literatura indianista e chega ao ápice nos romances de José de Alencar, nos quais eram descritas e valorizadas nossas raízes culturais, contudo a abordagem continuava sendo “copiada”, neste caso do romantismo europeu, acarretando uma diferenciação entre o mundo real e o mundo das ideias.
Sabemos que a economia brasileira esteve durante três séculos alicerçada na exploração e no tráfico da mão de obra escrava, o Brasil foi um dos últimos países a abolir a escravidão, somente em 1888, e mesmo assim por conta da pressão inglesa, além do que, o pensamento abolicionista, como toda doutrina reformadora no Brasil, nasceu do liberalismo europeu do século XIX, que na Europa contava com o suporte da revolução industrial, a urbanização, o crescimento econômico, mudanças que foram possíveis pela aplicação da ciência e da tecnologia. No entanto, o liberalismo, no Brasil, surgiu como resultado de tendências desprovidas do respaldo de qualquer mudança econômica profunda como tudo o que ocorria até então,  cópia das ideias e modelos europeus sem verificar se se adequariam as nossas realidades.
As ideias abolicionistas iam crescendo, umas poucas vozes isoladas tinham protestado pela abolição geral desde o começo do século XIX. Dentre as vozes isoladas, a mais famosa foi a de José Bonifácio em 1825, logo após a independência do Brasil. Sua proposta, porém, não foi levada em conta e o tráfico de africanos continuava em grande escala, pois ninguém ousava se opor, até que a pressão britânica forçasse o seu término em 1850.
Com o suprimento de escravos cortado, e com as alforrias, apesar do tráfico clandestino permanecer por algum tempo, a população servil aos poucos foi diminuindo. Dessa forma, há uma certa reorganização interna e a escravatura deixa de ser uma questão política por algum tempo. A calmaria, entretanto, foi quebrada em 1866, e novamente por pressão externa, neste caso, a pressão veio da França, no mesmo ano, quando um grupo de abolicionistas franceses apelou ao imperador D. Pedro II solicitando-lhe que exercesse sua autoridade para acabar com a escravidão. Em resposta ao grupo, o imperador comprometeu-se e esta passa a ser a primeira promessa formal de abolição de um sistema que vai entrando em falência, cuja derrocada será apenas uma questão de tempo.
O certo é que os abolicionistas, desde o começo, deveram muito à opinião estrangeira e quando muito, ao menos pelos princípios cristãos que deveriam nortear um país oficialmente católico pela Constituição de 1824, D. Pedro II era obrigado a responder às pressões estrangeiras.
Historiadores e antropólogos tem mostrado que a dinâmica cultural implica um processo de desterritorialização e de reterritorialização, ou seja ideias, conceitos e práticas que surgem em um determinado espaço acabam “migrando” para outros, encontrando muitas vezes lugares muito diferentes dos quais estas ideias surgiram e quase sempre impossíveis de adaptá-las, mas mesmo assim ocorre a tentativa de adaptação, segundo Olivien a dinâmica cultural brasileira é rica justamente por isso, essa capacidade de “digerir” ou de absorver de forma criativa o que vem de fora reelaborando conceitos e dando-lhes um tipo próprio, transformando essas ideias e conceitos importados em algo novo, diferente e inusitado, talvez isso ocorra até pelo contato interétnico acontecido nas terras brasileiras desde o “achamamento”, como diriam os antropólogos ocorrendo o processo de fricção interétnica, o que ocasionou a todos por aqui uma fácil absorção de “culturas” hábitos e costumes ou mesmo a imposição dos mesmos como foi o nosso caso, também retrata uma interdependência índio/branco, um poder explicativo especial por estar voltada para a satisfação de necessidades que não existiam antes do contato interétnico. Satisfeitas estas necessidades, o grupo indígena fica preso a sociedade tecnicamente mais poderosa; esta, por sua vez, tendo investido seus recursos nos territórios indígenas, deles também não pode abrir mão,  tanto para o colonizador como para o colonizado existe a necessidade de convivência harmônica, no caso do negro é diferente pois, este foi arrancado de sua terra e sofreu um processo de desafricanização e desumanização sendo obrigado a submeter-se a autoridade do “senhor” aderir a sua religião dentre outras imposições, além da consequente dependência após a abolição, talvez estes sejam alguns dos motivos iniciais para esta fácil “digestão” somos um povo resultante da mistura de vários outros, fruto da miscigenação, logo convivemos desde nossa “formação” com ideias, concepções e culturas diferenciadas.
Esse processo de captação e de reelaboração acontece aqui no Brasil em vários momentos, como cita olivien, em 1888 a abolição, as ideias liberais e pressões europeias, em 1889 os militares e políticos que proclamaram a republica que estavam completamente tomados pela ideologia positivista, uma corrente concebida na França por Auguste Comte, e que por mais incrível que pareça obteve maior êxito por aqui do que em seu país de origem.
Tão forte foi essa influência que até hoje podemos observa-la em nossa arquitetura, a chamada arquitetura positivista nos prédios que a elite, os donos do poder durante este período mandaram construir, por exemplo, no Rio de Janeiro e em Porto Alegre ainda existem diversas construções positivistas, também podemos observar essa forte influência nas inscrições contidas em nossa bandeira nacional “ordem e progresso” princípios positivistas, onde observamos a centralidade de Auguste Comte e de sua corrente.
Para uma parcela da elite brasileira o positivismo era uma ideologia que vislumbrava a modernidade justificando assim os meios autoritários para alcança-la, sendo assim  o positivismo foi durante muito tempo uma forma de o Brasil se modernizar em relação à Europa e também um artifício utilizado para “civilizarem” os índios. Provem do período da república velha a intenção de intelectuais pensarem o Brasil e discutirem a viabilidade de haver uma “civilização”  nos trópicos, pois existiam na visão deles dois obstáculos: a raça e o clima.
Alguns intelectuais como Nina Rodrigues, Euclides da Cunha, Oliveira Vianna etc estavam preocupados em explicar a sociedade brasileira a partir da interação de raça (ou fricção interétnica) e do meio geográfico, eram intelectuais pessimistas e preconceituosos, como ressalva Olivien, caracterizavam o próprio brasileiro a época como apático e indolente e a intelectualidade brasileira como destituída de filosofia e cientificidade e contaminada de um lirismo subjetivista e mórbido, pensando no embranquecimento da população como a única solução, e assim ocorre a vinda dos imigrantes na maioria italianos pra trabalharem nas lavouras de café.
Olivien cita Renato Ortiz em seu texto ao falar sobre o mito da democracia racial, iniciado por Gilberto Freyre, quando Ortiz ressalta que a ideologia da “democracia racial” é tão forte no Brasil que permeia parte do pensamento sociológico e o senso comum brasileiro.
Em 1922 o Brasil completou apenas 100 anos de sua independência de Portugal e até então não existiam partidos nacionais, apenas regionais, é então quando surge o primeiro partido nacional , o partido comunista do Brasil, no mesmo período o ocorreu a primeira revolta tenentista e a semana modernista em São Paulo. O movimento modernista representou um divisor de águas, por um lado significou a reatualização do Brasil em relação aos movimentos culturais e artísticos que estavam ocorrendo no exterior e por outro lado implicou também na busca de raízes nacionais, valorizando assim o que havia de mais autêntico no Brasil, dentre as contribuições deste movimento estão além da atualização artística e cultural de uma sociedade subdesenvolvida a problemática da nacionalidade é posta  em evidência.
A partir de 1924, segunda parte do movimento modernista, o anterior ataque ao “passadismo” foi substituído pela ênfase na elaboração de uma cultura nacional, ocorrendo uma espécie de redescoberta do Brasil, pelos brasileiros, os modernistas recusaram o regionalismo proposto por Freyre, porque acreditavam que era através do nacionalismo que se chegava ao universal.
Em 1928, Oswald de Andrade, um dos principais expoentes do movimento modernista lançou o “manifesto antropófago”, onde era proposta uma modernidade brasileira que se caracterizava por saber deglutir criativamente o que vem de fora, Andrade argumentou que os brasileiros se dedicaram a esta “prática” desde o começo de sua história.
Em 1926 foi lançado o “manifesto regionalista” de Gilberto Freyre, que tem um sentido inverso ao movimento iniciado em 1922, pois se trata de um movimento que não atualizava a cultura brasileira em relação ao exterior, mas que deseja preservar a tradição em geral e mais especificamente a de uma região economicamente atrasada, o Nordeste, o manifesto regionalista desenvolveu dois temas interligados: a defesa da região enquanto unidade de organização nacional e a conservação dos valores regionais e tradicionais do Brasil em geral e do nordeste em particular.
A necessidade de se reorganizar o Brasil foi o primeiro tema central do manifesto regionalista e uma preocupação constante dos pensadores do fim do século XIX e começo do século XX, decorreria do fato de ele sofrer, desde que “se tornou nação”, as consequências maléficas dos modelos estrangeiros que lhes eram impostos sem levar-se em consideração suas peculiaridades e sua diversidade física e social.
Os modelos e os padrões importados, incompatíveis e inconciliáveis com nossas peculiaridades, justificam a formulação de um sistema alternativo de organização do Brasil. Gilberto Freyre afirmou que o único modo de ser nacional no Brasil é antes sendo regional, chegando a uma conclusão semelhante a dos modernistas, pois estes em sua segunda fase do movimento entenderam que a única maneira de ser universal é antes ser nacional. Contudo a forma de abordagem de Freyre é diferente dos modernistas, pois não está alicerçada em uma atualização cultural através de valores modernos vindos do exterior, ao contrário, critica os malefícios  do progresso e da importação de costumes e valores estrangeiros.
Olivien cita novamente Renato Ortiz, quando o mesmo afirma que : “a posição de Freyre se aproxima muito da visão dos românticos que se ocuparam da cultura popular na Europa no século passado e para os quais a autenticidade contida nas manifestações populares constituiria a essência do tradicional”.
A reação de Freyre é de cunho tradicionalista e assemelha-se a reação aristocrática diante das mudanças decorrentes da urbanização e da industrialização, e que estavam fechadas em uma critica a perda de valores comunitários e da pureza cultural, que supostamente teriam existido no passado.
O Brasil continua discutindo a formulação de modelos para organizar a nação, e esse debate acaba inevitavelmente passando pela discussão do que é nacional de fato e  o que é estrangeiro, o país continua girando em torno da questão da identidade nacional ,que é reposta e reatualizada a medida que novos contextos são criados.
Durante muito tempo o Brasil teve uma população majoritariamente rural, isto fez com que muitos pensadores considerassem que o país tivesse uma vocação agrária como foi o caso de oliveira Vianna, inclusive alguns políticos compartilhavam do mesmo pensamento até as primeiras décadas do século XX como, por exemplo, Júlio Prestes, adversário de Getúlio Vargas nas eleições presidenciais que acabaram sendo pretexto para a revolução de 1930.
Getúlio Vargas possuía um discurso muito diferente de seu adversário menos bucólico e mais, digamos ”moderno”, o Brasil experimentou importantes transformações começando pela republica velha e assumindo uma dimensão mais abrangente na republica nova a partir de 1930, estas transformações corresponderam a criação de uma indústria de substituição de bens não duráveis, ao crescimento das cidades, a crise do café, a crise do sistema baseado entre combinações políticas entre as oligarquias agrárias cafeeiras ou seja a famosa política do café com leite, a política dos governadores, e ao surgimento das revoltas sociais militares que começaram na década de 1920 atingindo o ápice com a revolução de 1930.
Foi a partir desse período que se criou um aparelho de estado mais centralizado, deslocando o poder do âmbito regional para o nacional, causando uma serie de mudanças, a partir desta época foi preciso repensar o Brasil, pois o país havia experimentado um processo de consolidação política e econômica e teria de enfrentar as consequências da crise econômica de 1929 e da segunda guerra mundial. O nacionalismo ganhou ousadia e o estado se firmou, o estado tomou para si a tarefa de “construir a nação”, essa tendência acentuou-se muito com a implantação da ditadura do estado novo de 1937 à 1945, quando os governadores eleitos foram substituídos por interventores e as chamadas milícias estaduais perderam a força, aumentando a centralização política e administrativa. Na esfera cultural e ideológica ocorreu a proibição do ensino de línguas estrangeiras e a introdução da disciplina “moral e cívica” nos currículos escolares, além da criação do departamento de imprensa e propaganda que tinha a seu cargo a censura e a exaltação das virtudes do trabalho.
No final da segunda guerra mundial terminou o estado novo e foi eleita uma assembleia nacional constituinte que tinha a tarefa de pensar um novo modelo de organização administrativa e política. A construção de rodovias e a abolição da autonomia dos estados ajudaram na unificação do mercado interno e na diminuição do poder das oligarquias locais, com todas estas transformações a migração campo-cidade aumentou, criando um novo protagonista no cenário político: as massas urbanas que seriam interpeladas como agentes sociais pelo populismo.
A problemática do nacional e do estrangeiro continuou sendo uma constante na vida política do Brasil, nesse período que vai de 1946 à 1964 a questão nacional foi retomada com intensos debates, dos quais o ISEB e o CPC foram exemplos claros. Os intelectuais brasileiros foram acusados de colonizadores e que teriam contribuído para a criação de uma cultura alienada, resultado de nossa situação de dependência, os temas do progresso e da modernidade também eram frequentes neste período, vencer a condição de subdesenvolvimento era o objetivo, do qual a indústria era um elemento chave, surgiram então industrias de substituição de importação de bens duráveis, aumentando a dependência em relação ao capital estrangeiro, foram criados órgãos como a SUDENE, cuja finalidade especifica era reduzir as desigualdades regionais, das quais o nordeste era considerado o exemplo mais significativo.
A inauguração de Brasília em 1960 proporcionou uma marcha para o oeste e consequentemente a integração territorial, ocasionou debates entusiasmados que giravam em tono da necessidade de se gastar tanto dinheiro para sua realização e do atrevimento de sua arquitetura considerada muito moderna e avançada, em 1964 com o golpe militar houve uma crescente centralização política, econômica e administrativa, através da integração do mercado nacional, da inauguração de redes de estradas, de telefonia, de comunicação de massa, da concentração de tributos no âmbito federal, do controle das forças militares estaduais pelo exército e da intervenção política estadual. O novo Regime levou a acumulação de capital a patamares mais elevados, o que foi feito em associação com o capital estrangeiro, o Brasil passou por um processo de desenvolvimento desigual e combinado, como afirma Olivien, criando um quadro em que há simultaneamente uma situação de miséria extrema e elementos de progresso e de modernidade.
Surge o movimento do tropicalismo, em 1968, este movimento mostrou que a realidade brasileira havia mudado muito, o tropicalismo se propôs a ser por um lado uma ruptura estética e ideológica, e por outro lado uma retomada dos temas suscitados pelo movimento modernista de 1922, do ponto de vista estético esta ruptura ocorreu por meio da introdução de instrumentos musicais como a guitarra e pela criação de ritmos dissonantes, já do ponto de vista ideológico a ruptura se deu pela valorização da televisão como meio de expressão e pelo fato de as letras cantarem um Brasil  em que havia aviões no ar e crianças descalças na terra, ou seja, estas músicas mostravam os contrastes existentes no país, mostravam que o moderno estava cada vez mais se articulando com o atrasado.
A continuidade do tropicalismo ocorreu por sua ligação com o movimento modernista e com os temas que este suscitou, neste período o debate entre o nacional e  o regional continuou, porém de uma forma diferente, se adequando ao novo contexto; e novamente o estado convocava para si o papel de ser o criador da identidade nacional, responsável simultaneamente por promover o progresso e manter acesa a memória nacional, porém não seria contraditório o fato de este mesmo estado ter propiciado uma intensa desnacionalização da economia? Uma vez que como coloca o autor essas duas questões estão vinculadas?.
Com a luta pela redemocratização do país e com o processo de abertura política que marcaram o fim do ciclo militar (1985), velhas questões vem a tona novamente, observam-se tendências contrárias a centralização, que se manifestam através da ênfase da necessidade de um verdadeiro federalismo, da proclamação das vantagens de uma descentralização administrativa, do brado por uma reforma tributária que entregue mais recursos para os estados e municípios e da afirmação de identidades regionais que salientem suas diferenças em relação ao resto do Brasil.
A afirmação das identidades regionais do Brasil pode ser encarada como forma de salientar diferenças culturais e como reação a uma tentativa de homogeneização cultural, esta redescoberta das diferenças na atualidade da questão da federação, em uma época em que o país se encontrava bastante integrado do ponto de vista político, econômico e cultural, sugerem que no Brasil , o nacional passa primeiro pelo regional como sugeria Freyre.
De acordo com Olivien, o que se observou no Brasil a partir de sua redemocratização, foram o intenso processo de constituição de novos atores políticos e a construção de novas identidades sociais, incluindo-se a identidade etária, a identidade de gênero, as identidades religiosas, as identidades regionais, as identidades étnicas, mais recentemente as identidades sexuais etc., porém acredito eu, que este processo de surgimento de novas identidades está intrinsecamente relacionado com a condição pós-moderna que valoriza o individualismo, as questões reivindicadas pelas minorias, a necessidade de sentir-se especial em meio a um mundo onde aparentemente as fronteiras diminuíram, pelo menos as culturais ,mais as econômicas continuam gigantescas, a ausência de ideais e de valorização pessoal, a colagem de estilos passados adaptados ao novo etc.
O advento do fenômeno da globalização tornou a interação do Brasil com o resto do mundo multifacetada, o padrão de trocas entre diferentes países é desigual e depende de suas posições no contexto econômico – político mundial. Se durante muito tempo o país recebia imigrantes e importava mercadorias manufaturadas e produtos da industria cultural, a situação mudou, hoje milhões de brasileiros vivem no exterior com o mesmo objetivo dos imigrantes do inicio do século XX que viveram para terras brasileiras em busca de melhores condições de vida, pois por aqui a situação é de desigualdade e disparidade, muito embora saibamos que estamos vivendo uma crise econômica mundial , mas logicamente os países periféricos subdesenvolvidos ou no caso do Brasil como prefere dizer nosso presidente ”em desenvolvimento”  sofrem mais as consequências desta crise devido a política neoliberal e a construção de nossa economia dependente desde a formação da nação.
Um dos aspectos centrais do projeto da modernidade sempre foi o da emancipação humana, se a modernidade técnica não estiver a serviço do bem estar social e da conquista da cidadania plena, ela perde o sentido, justo porque o que caracteriza o Brasil é esta contradição gritante entre uma crescente modernidade tecnológica e a não realização de mudanças sociais que propiciem o acesso da maioria da população aos benefícios do progresso material.
No Brasil existe uma tradição de valorização do trabalho, mais especificamente o manual, quer dizer “valorização” para a classe subalterna e subserviente, a oligarquia cafeeira teria sido a responsável pela criação da frase “o trabalho dignifica o homem” como o objetivo de controlar e passar a falsa ideia de valorização dos trabalhadores, aqui uma expressão racista definia o trabalho braçal, duro : “trabalho para negro”, mesmo depois da abolição e do surgimento do trabalho assalariado, o “trabalho” nunca foi valorizado verdadeiramente, porque a ordem social continuou sendo excludente. O Brasil é hoje uma sociedade de imensas desigualdades sociais, econômicas, ao contrário dos outros países que passaram por processos de urbanização e industrialização, o Brasil nunca mexeu em sua estrutura fundiária, de latifúndios frequentemente improdutivos e ainda não realizou de fato a sua reforma agrária. O Brasil é um país que experimentou uma modernização conservadora em que o tradicional se combinou como moderno, a mudança se articulou com a continuidade e o progresso convive com a miséria.
A modernização em geral esta associada ao individualismo que substituiria gradativamente as relações mais pessoais das sociedades tradicionais, o Brasil segue um caminho bastante diverso; há uma ordem jurídica que coloca o Brasil ao lado de outras nações que adotaram o ideário individualista e liberal, o que se traduz inclusive no grande número de leis e regulamentos que existem no país. Porém, o Brasil é uma sociedade em que as relações pessoais continuam sendo extremamente importantes (daMatta in Olivien) e por imediato, existe a combinação de uma organização burocrática, formal e individualista da vida social com uma forma pessoalizada e informal de resolver os problemas que a própria modernidade coloca no dia-a-dia. Isto coloca a questão de saber como o Brasil conciliará as características associadas a modernidade com o seu modo peculiar de ser.
Ao lermos o texto de olivien somos remetidos a Renato Ortiz em mundialização e cultura e a moderna tradição brasileira, quando o mesmo nos lembra que se deve associar o desenvolvimento histórico da nação ao da modernidade, o primeiro se realiza através do segundo concebendo a nação e a modernidade como etapas do processo de desenraizamento e desterritorialização contemporaneamente desembocado na realidade qualitativamente nova contida nas noções de sociedade global e de mundialização da cultura.
Em a moderna tradição brasileira Ortiz procura mostrar como a questão da identidade se encontra relacionada ao problema da cultura popular  e a questão do estado, já que falar em cultura brasileira é discutir os destinos políticos do país, como vimos anteriormente no texto de Olivien. Duas condições guiaram o pensamento intelectual sobre o nacional – popular, a primeira está relacionada aos estudos e preocupações folclóricas tomadas enquanto manifestações culturais das classes populares, este pensamento está atrelado a questão nacional na medida em que as tradições populares encarnam o que seria o espírito de um povo; a descoberta das manifestações da cultura popular permitiria a identificação e a construção da identidade nacional.
A segunda tradição liga cultura popular a questão política, ou seja , a cultura se transforma em ação política junto as classes populares, diferentes grupos ideológicos procuraram criar, através da cultura popular, uma consciência critica dos problemas sociais, visando a constituição do povo-nação, tanto a versão tradicional como a politizadora relacionam cultura popular com a expressão da nação no primeiro caso tentando preservá-la no segundo utilizando-a como base de transformação social.
A questão nacional tem sido assim o denominador comum de todos os autores independentemente de seus posicionamentos, do estado novo passando pelo ISEB, pelos CPCs e pelo método de alfabetização de Paulo Freire, os intelectuais estiveram discutindo a construção de uma identidade nacional, e enquanto esta tem sido o eixo do debate intelectual juntamente com a questão da modernidade, houve um grande silêncio sobre a constituição de uma cultura de massa, assim como sobre o relacionamento entre a produção cultural e o mercado. Tomando Florestan Fernandes como referência, Ortiz vai assumir a perspectiva de que "a burguesia não possui na periferia o papel civilizador que desempenhou na Europa". Nos países de periferia, e consequentemente no Brasil, houve uma defasagem entre os níveis de modernidade, "defasagem entre modernização aparente e a realidade". O conceito de modernismo "antecipa" uma realidade que de fato não estaria acontecendo. E neste sentido "a noção de modernidade está 'fora do lugar' na medida em que o Modernismo ocorre no Brasil sem modernização" (p. 32). Haveria então uma "inadequação de certos conceitos aos tempos em que são enunciados". Ortiz vai considerar que o modernismo de países periféricos "é forçado a se construir sobre fantasmas e sonhos de modernidade" (p. 34). Como nos países de periferia o desejo de modernidade se antecipa à realidade, a modernidade passa a estar ligada à construção da identidade nacional. Assim se configura a concepção de que só seremos modernos se formos nacionais, ideia que no Brasil toma forma em meados dos anos de 1920 com o movimento modernista como vimos no texto de Olivien e que guia todas as tentativas de construção da nação através da cultura ou da atuação do Estado. Ortiz complementa observando que no Brasil a modernidade acabou sendo assumida como um valor em si, sem ser questionada.
É preciso também não esquecer que esta concepção se origina, no contexto alemão, já que no século XVIII e parte do XIX a Alemanha era um país atrasado, pelo menos em termos políticos, uma vez que não tinha realizado sua unificação. Exceto o caso inglês, com sua revolução industrial, e francês, com sua revolução política, os demais países da Europa foram em alguma medida periferia. Cabe então perguntar se a burguesia dos outros países europeus teria ou não desempenhado um papel civilizador. A burguesia vienense em torno de 1900 foi ou não civilizadora? De outro lado, se "ideias fora de lugar" são projetos, todas as ideias estiveram fora de lugar por algum tempo. Todas as utopias, no sentido de  Karl Mannheim, são ideias "fora de lugar", ou melhor, fora de tempo, já que, creio, a metáfora temporal preenche melhor esta imagem. Em que situações a modernidade foi projeto e , depois se tornou realidade,  e em que situações ela só se realizou em parte ou não se realizou?
No Brasil, a modernidade enquanto projeto de industrialização parece ser a versão vencedora, embora também tenhamos tido outros projetos de modernidade: Alberto Torres propunha um Brasil agrícola, rural e moderno, isto durante a Primeira República. Se a versão vencedora acabou sendo mesmo aquela que pratica a industrialização, ou melhor, a urbanização, como padrão de modernidade, cabe perguntar: como e por que os intelectuais nos anos de 1960 não refletiram sobre ela precisamente quando uma de suas faces nos chegava através da indústria cultural? Talvez seja o compromisso entre modernidade e construção de identidade nacional o que tenha impedido os intelectuais de ver os aspectos da modernidade que ultrapassavam o espaço social da nação.















  

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