Agência Rio de Notícias

terça-feira, 28 de agosto de 2012

“NEM A FORÇA DOS VENTOS, PODE DERRUBAR UM IDEAL”. Paulo Fonteles



  

Partindo da concepção do bem viver, que visa recriar diante do fracasso do neoliberalismo um antigo conceito de algumas culturas andinas, o princípio de vida em harmonia com outras pessoas do mesmo grupo, entre grupos diferentes, com nós mesmos, com a mãe terra e seus filhos e filhas de outras espécies, inspirada na conferencia de abertura do IV encontro internacional de Ecomuseus e museus comunitários com Leonardo Boff inicio minhas impressões sobre Belém e sobre o referido encontro, tendo a certeza de que, enquanto brasileira, natural do Rio de janeiro não fazia idéia do que me esperava ao pisar na Cidade Morena, a capital do estado do Pará, a cidade das mangueiras.
Essa concepção se adequou perfeitamente ao que vi e vivi na Ilha de Caratateua, Mosqueiro, enfim no território do Ecomuseu da Amazônia. Foram sete dias de puro aprendizado, vivi a experiência comunitária de fato, interagindo muito com os belenenses,e, confesso que não imaginava um povo tão receptivo, tão amável, um mundo de gentes, saberes, histórias e os cheiros do Pará... a diversidade e abundância dessa terra. Sabores! Como esquecer do cupuaçu? Do Uxí? E do Taperebá? Cujo nome tive dificuldades para acertar, sendo motivo de risos em uma sorveteria no centro de Belém, não posso esquecer do famoso açaí e do ingá... E o Tucupi e o tacacá? Gostos únicos e inconfundíveis.
Iniciei esta viagem pela  Ilha de Caratateua, lar da escola Bosque Professor Eidorfe Moreira e do Ecomuseu da Amazônia, uma das 25 ilhas que formam o Distrito Regional de Outeiro, banhada por águas doces, com rio que mais parece mar, minha primeira impressão da Praia do Amor, que conheci assim que cheguei. Um local povoado por comunidades ribeirinhas, artistas, poetas e escritores, enfim, de gente muito boa. Impressionei-me com as dimensões da Escola Bosque, onde fiquei hospedada e com sua estrutura, a conferência de abertura do evento foi realizada na UFPA, mas o evento ficou concentrado na Escola Bosque.
Tive a oportunidade de percorrer grande parte da cidade, atravessando-a, indo até outros municípios como Benevides, passando por Marituba (outro município) onde vi a estátua do menino Deus e Ananindeua. Percorri os bairros periféricos de Belém, conheci Icoaraci, que possui um Parque Industrial, e é um importante pólo de Artesanato em cerâmica, no bairro do Paracuri mais precisamente na Travessa Soledade, Paracurí é o nome do Rio que corta essa região, importante para a comunidade, pois no percurso deste rio encontram-se várias jazidas de argila, matéria prima para a confecção das peças de cerâmica, ameaçadas com as constantes invasões... Também conhecemos a orla de Icoaraci, belíssima por sinal, onde foram comemorados os cinco anos do Ecomuseu da Amazônia, assistimos a uma bela apresentação de carimbó e também conhecemos a feirinha de artesanato da orla, repleta de peças lindíssimas.
Percorrendo a cidade pude conhecer também Terra firme ou bairro Montese ou ainda Casa preta, um dos bairros mais populosos de Belém, sabidamente violento, ganhou esse apelido (Terra firme) por ser constituído por terras “firmes” e altas próximas a áreas alagadas pelo rio Tucunduba. Terra Firme concentra várias instituições de pesquisa e ensino, mesmo com sua fama de bairro violento, além disso, fica nas proximidades da UFPA.  Muitos projetos estão sendo realizados por lá, e o poder público também atua,  com as ações do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci)/ “Território de Paz”, o nome do projeto.
Também tive a oportunidade de passar rapidamente pelo centro de Belém, pela cidade velha, conhecer o famoso mercado “Ver o peso” e descobri porque tem esse nome, passei pelo Forte do Castelo do Senhor Santo Cristo do Presépio de Belém ou simplesmente Forte do Presépio, na baía do Guajará, na ponta de Maúri à margem direita da foz do rio Guamá, me impressionando com a belíssima paisagem, vi os prédios residenciais altíssimos da cidade, e constatei que como toda capital Belém também é repleta de contrastes.
O IV EIEMC teve início no dia 12 de junho, com a já citada conferência de abertura com Leonardo Boff, mediada por Mario de Souza Chagas, Boff iniciou sua conferência com uma analogia, na minha opinião acertadíssima, entre a semente e o Ecomuseu (a semente possui em si a raiz, as folhas, o caule, os frutos...), e como sempre defendeu a substituição do paradigma antropocêntrico pela perspectiva biocêntrica, pude perceber, a partir desta conferência que o desenvolvimento sustentável é um conceito puramente ideológico, pois não é possível desenvolvimento, ao menos na medida em que desenvolvimento provoque a produção de bens materiais, em um planeta cujos recursos estão chegando a beira do esgotamento, Boff afirmou que devemos “descolar” a sustentabilidade da economia, pois a economia fez da sustentabilidade sua refém, e ressaltou que passamos de uma economia de mercado para uma sociedade de mercado, assim governos, empresas e a sociedade civil interessados em aumentar sua riqueza apenas usam o discurso da sustentabilidade para posar como politicamente corretos. Boff defendeu que a sustentabilidade é uma espécie de constante cosmológica, biológica humana, processos globais que permitem ao universo se manter, e definiu: “sustentabilidade é toda ação destinada a manter as condições energéticas, informacionais, físico-químicas que sustentam todos os seres do universo, especialmente a terra viva, a comunidade de vida e a vida humana, visando a continuidade de todos esses seres e ainda atendendo as necessidades das gerações presente e futura, de tal forma que os bens e serviços da natureza sejam mantidos e enriquecidos em sua capacidade de regeneração, reprodução...”
Aprendi muito no decorrer de todo o IV encontro, as experiências de outros Ecomuseus, as palestras, as mesas redondas, todas imprescindíveis para nós, do movimento Ecomuseu Sepetiba, ainda incipiente, embrionário nesse universo ecomuseológico. O exemplo do Ecomuseu da Amazônia nos fez refletir muito, como dito no próprio texto provocativo deste evento após vários anos este ecomuseu fez da capacitação dos habitantes e das comunidades dos territórios que lhe foram confiados (três ilhas e um distrito da cidade de Belém, capital do Estado do Pará) o coração de sua política, atuando em comunidades marginalizadas, isoladas, auxiliando no empoderamento, na construção de confiança em si (auto-estima) e no apoio de modo voluntário e criativo sobre os recursos locais, estimulando o processo de conscientização e a criatividade da população, para isso utilizando as informações do seu passado e presente e os seus recursos.
 Não posso esquecer de dissertar aqui  sobre a experiência que mais me marcou no decorrer desta semana de suspresas, descobertas, construção de conhecimento e aprendizado, no último dia de nossa estada em Belém visitamos a ilha do Mosqueiro, podíamos optar entre três roteiros possíveis nesta ilha, escolhi, ainda um pouco insegura o assentamento Paulo Fonteles, no bairro Sucurijuquara. Uma comunidade surpreendente, motivo pelo qual o título deste texto é “nem a força dos ventos pode derrubar um ideal” frase de Paulo Fonteles, que deu nome ao assentamento, que corresponde perfeitamente ao que vimos, vivemos e aprendemos nesse encontro e com o Ecomuseu da Amazônia; tivemos como cicerone o comunitário David, pessoa maravilhosa e nos encantamos com sua simplicidade e sabedoria. Trata-se de uma comunidade muito solidária, bastante politizada que luta a todos os instantes por seus direitos sejam eles coletivos ou individuais, e estão sendo orientados pelo Ecomuseu da Amazônia, podemos perceber isso quando perguntei a David o porquê do nome “Paulo Fonteles” e descobri que se trata de uma homenagem ao ex-deputado e advogado de posseiros do Sul do Pará assassinado em 1987, conhecemos o projeto Probio, incentivado pela Petrobrás e verificamos a perfeição do trabalho realizado ali, o respeito pelas seringueiras, muitas centenárias, conhecemos a história da trilha da brigada, “viajamos” de rabeta (e essa aventura não estava no roteiro), e respiramos o Pará de verdade, encantados com os mangues, com o tamanho das raízes do chamado “mangue verdadeiro”, com a exuberância da natureza, com o rio/mar...
Após a travessia eletrizante de rabeta almoçamos na casa de dona Germina, onde fomos muito bem recebidos e nos deliciamos, embora se trate de uma comunidade unida e politizada e bem orientada, pude perceber que ainda possuem alguns problemas, entre eles estão a insuficiente iluminação pública, saneamento básico, além disso a distância de escolas e a falta de pavimentação. Não posso deixar de falar de Dona Iladir, um exemplo de força, nos contou que pegava açaí do pé e há pouco tempo caiu de um pé quebrando duas costelas, e mesmo ainda se recuperando não perdeu o pique, nos acompanhando durante todo o percurso da trilha (aproximadamente uma hora e cinqüenta minutos), Dona Iladir cuida ainda de nove netos e com muita boa vontade me incentivou a atravessar o rio de Rabeta, pois eu estava temerosa, e para me surpreender ainda mais empurrou o referido barquinho comigo e mais três pessoas em cima sem muito esforço aparente, ainda cuida de seu roçado, e em sua simplicidade vive feliz, conhecemos in locu uma casa de farinha e nos encantamos com dona Domingas, matriarca da família que cuida da casa, vimos todo o processo para se extrair o tucupi, a farinha, e a beleza do trabalho realizado por essa gente maravilhosa, também visitamos a criação de tilápias e tambaquis (piscicultura), a horta orgânica do assentamento, me apaixonei por um pequeno cabritinho, temi uma formiga gigante que indica que a mata onde estávamos era primária e caso algum de nós fosse picado por ela teria 24 horas de dor( informação que deixou a todos e todas receosos), a tiririca, o pau de fogo, experimentei ingá, vi sementes e plantas lindas ;  senti a água morna do rio que parece mar...
Tenho por obrigação, admiração e respeito agradecer e parabenizar Maria Terezinha Resende Martins, por tudo o que me foi proporcionado nessa aventura, também não posso esquecer de Emília Medeiros de Souza e toda a equipe responsável por este evento, Gerson Lage, Renato Souza, Ellen Thaís Azevedo, Luana Fortuna, Lecinda, Wildinei Lima, Afonso, Luiza, Lidy e muitos outros não menos importantes, que ficarão para sempre em meu coração.
A experiência adquirida no IV encontro internacional de Ecomuseus e museus comunitários, só me fez asseverar a minha perspectiva, a minha concepção de que o Ecomuseu deve ser uma expressão do homem e da natureza, a relação que se dá entre os dois e todas as possíveis relações entre o homem e o “real”, é uma expressão do tempo, reflexo, espelho. Sentirei saudades da cidade morena, das mangueiras, do tucupi e do açaí, não serei mais a mesma após sentir, viver e aprender a amar Belém, e infelizmente eu não pude conhecer tudo o que desejava, quero voltar, quero voltar a Paulo Fonteles, quero aprender mais com o Ecomuseu da Amazônia e me admirar com a diversidade do meu país continental, lindo, vívido, Brasil! Viva a Belém! Viva o Pará!


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