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terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Florestan Fernandes: uma vida dedicada ao estudo da sociedade brasileira

http://www2.faac.unesp.br/pesquisa/lecotec/projetos/revista/index.php/proficiencia/143-florestan-fernandes-uma-vida-dedicada-ao-estudo-da-sociedade-brasileira

Qui, 19 de Abril de 2012 22:18 | PostAuthorIcon Author: Aline Pádua


“Iniciei minha aprendizagem sociológica aos seis anos, quando precisei ganhar a vida como se fosse um adulto”


“Um humanista no lado pessoal, um socialista na política e um acadêmico de alto nível na sociologia”, é assim que o professor de sociologia da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Diogo Valença, define Florestan Fernandes.
Nascido em 1920, na cidade de São Paulo, Florestan Fernandes lutou desde cedo pela vida. Aos nove anos teve de deixar os estudos para trabalhar e ajudar no sustento da família. Florestan começou como auxiliar de barbearia, foi também engraxate, vendedor de produtos farmacêuticos e garçom no bar do Bidu, no centro de São Paulo, onde encontrou incentivo de fregueses, que o estimularam a concluir seus estudos no curso de madureza (supletivo).
Em 1947, já aos 21 anos, Florestan ingressou na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP), deixando para trás o que considerava ser sua verdadeira vocação, a engenharia química. A cientista social pela undação Educacional Unificada Campograndense (FEUC) Bianca Wild explica que “como o curso de engenharia exigia dedicação integral, Florestan optou pelas ciências sociais (meio período), pois assim poderia trabalhar e estudar, já que era responsável pelas despesas de sua casa”. Para o professor Diogo Valença, a escolha do curso de ciências sociais tinha a ver com uma vaga esperança de reforma social que o jovem Florestan Fernandes alimentava.
No ensaio de caráter autobiográfico, Em busca de uma sociologia crítica e militante, que está publicado no livro A sociologia no Brasil, Florestan relata que iniciou sua aprendizagem sociológica aos seis anos de idade, quando teve que ganhar a vida como um adulto. Para Diogo Valença, essa influência foi fundamental na obra de Florestan Fernandes, como ele mesmo procurou mostrar em seu ensaio. A escolha dos temas de pesquisa, como o folclore, a cultura de folk, os negros, o imigrante, o colonizado, enfim, que sempre partiram da perspectiva das minorias, é uma característica marcante da sociologia de Florestan Fernandes que possui relações com sua história de vida.
Florestan Fernandes é considerado o pai da sociologia crítica no Brasil, e foi quem profissionalizou a sociologia quando a pôs a serviço do desenvolvimento e da justiça social a que o povo tem direito. “Florestan é um ícone, primordial para a sociologia no e do Brasil, e com certeza representa uma ruptura na cena sociológica, uma vez que inaugura uma nova interpretação do Brasil, um novo estilo de pensamento”, aponta Bianca Wild. A interpretação de Florestan Fernandes sobre o país envolve diversos trabalhos e assume diferentes matizes de acordo com as mudanças políticas e históricas da sociedade brasileira.

O sociólogo foi também o primeiro a instituir a sociologia científica na universidade, a estabelecer métodos rigorosos de trabalho sociológico como especialização intensa e única. “Florestan encontrou os problemas fundamentais do seu tempo, tentou decifrá-los e encontrar possíveis diretrizes de resolução; concentrou-se na pesquisa e interpretação das condições e possibilidades das transformações sociais e por isso a revolução social é um tema primordial em grande parte de seus escritos”, destaca Bianca Wild. A cientista social lembra também que Florestan rompeu com o consenso existente na sociedade brasileira de que nosso país é absolutamente harmônico do ponto de vista racial, mostrou que isso é uma fantasia, e que em nossa sociedade os preconceitos e o racismo atuam de várias maneiras.
O ponto de vista crítico esteve presente em toda a produção de Florestan, compreendeu o ensino, a educação, a conferência, o debate público. Ao submeter o real e suas ponderações à reflexão crítica, ele desvendou as diversidades, os antagonismos, disparidades, abarcando os diferentes aspectos envolvidos dos grupos e classes.
“Para mim, a sociologia de Florestan foi sim um marco divisor”, coloca o professor Diogo Valença. “Mas eu acho que esse envolvimento político presente na sociologia de Florestan Fernandes é muito raro hoje em dia. Para se fazer sociologia crítica e militante não basta apenas lançar uma luz crítica sobre a sociedade. É preciso ir mais longe”, ressalta.
Florestan Fernandes também esteve ligado ao Partido dos Trabalhadores desde sua fundação. Em 1986 se filiou ao partido, exerceu o cargo de deputado federal por duas vezes, entre os anos de 1987 e 1995. O sociólogo também colaborou com a Folha de São Paulo desde os anos 40 e, em meados de 1989, passou a ter uma coluna semanal no jornal.
“Florestan foi um homem político, um sociólogo militante, e sabemos que o intelectual engajado é uma figura em extinção”, afirma Bianca. “Já em seu tempo isso poderia ser verificado, tudo o que produziu, fez tendo como escopo principal a transformação da sociedade brasileira”, coloca.

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