Agência Rio de Notícias

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

O Senhor das moscas


Há algum tempo decidi trabalhar em sala de aula com dinâmicas, filmes, documentários e internet, e como de costume procuro filmes que acrescentem na compreensão dos conceitos e temas que trato nas aulas de sociologia e filosofia. O senhor das moscas é um desses filmes, que só tem a acrescentar.
O filme é baseado no livro William Golding, vencedor do Prêmio Nobel em 1983. É geralmente lembrado como um clássico da literatura do pós-guerra, foi publicado em 1954. Foi adaptado para o cinema em 1963 por Peter Brook, mas utilizei a refilmagem de 1990 dirigida por Harry Hook. O filme conta a história de um grupo de meninos de uma escola militar que vão parar em uma ilha deserta devido a um acidente aéreo, que se veem sozinhos sem a presença de um adulto, pois o piloto acaba se ferindo gravemente e vindo a falecer.
Anda não conclui a leitura do livro, mas pelo que já li acredito que a produção não é infiel a obra, quer dizer, a ideia central permanece, contudo o contexto histórico e social em que se passa a história contada no livro e da refilmagem de 1990 é completamente diferente, tanto que os meninos no filme falam sobre, TV, sobre a série Alf e programação televisiva em geral.
Podemos dizer que o filme e o livro retratam a regressão à selvageria, trata-se de um trabalho de filosofia moral, fazendo uma crítica específica do caráter humano e, sobretudo da relação homem/sociedade, lembrei-me de Rousseau “Todo homem nasce bom, e a sociedade o corrompe” será?. Com toda certeza é uma das mais significativas produções sobre a natureza humana, suscitando reflexões sobre a “civilização”, a sociedade e o seu papel na formação do ser humano. Isso fica claro quando passada a euforia dos meninos, por estarem em uma ilha, “livres” das regras, da escola, dos pais, professores etc., inicialmente os meninos designam um líder, Ralph, eleito em assembleia pelo grupo, como representante ele tenta estabelecer regras para o convívio buscando melhorar as condições na ilha, e organizar as tarefas e atividades, justificando que precisam alimentar-se, proteger-se das condições climáticas e, além disso, precisam sinalizar a sua presença ali para que o socorro seja possível, Ralph também institui uma regra para que cada integrante possa se manifestar, utilizando uma concha, deste modo todos poderiam falar, neste caso a concha representaria a ordem e a democracia na ilha.
 A personagem Jack e seu grupo se opõem claramente as ideias propostas por Ralph, e daí inicia-se um conflito, Jack nomeia seu grupo de “os caçadores” e afirmam que devem apenas dedicar-se a caça e a diversão, prometendo soluções fáceis e contentamento, recusando-se a participar dos trabalhos rotineiros que devem ser de responsabilidade da coletividade segundo Ralph. Jack representaria a barbárie, o lado negro da humanidade.
Formam-se então dois grupos, o grupo que busca sobreviver a partir dos ensinamentos adquiridos na vida em sociedade, liderado por Ralph e o grupo que quer aproveitar cada instante sem pensar no amanhã, sem regras, sem solidariedade, sem medir as consequências de seus atos, enfim, sem limites. As diferenças entre os grupos liderados por Ralph e Jack respectivamente começam a ficar explícitas: o grupo de Jack seria mais instintivo e o de Ralph mais racional. Ralph poderia representar a democracia, uma vez que ele é o líder por escolha da maioria e tenta tomar as decisões que beneficiem a todos ou o governo, a ordem e a responsabilidade e Jack poderia representar o fascismo, uma vez que é cruel e pretende controlar a todos na ilha por meio da força, impondo-se com violência.
O conflito entre os impulsos bárbaros de Jack e a racionalidade de Pig passa a causar problemas para Ralph, que representa a consciência, pois tenta agir com clareza para obter seu maior objetivo: ser resgatado.
Logo no início do filme Ralph, tentando acender uma fogueira para sinalizar a presença deles na ilha e assim viabilizar o resgate o quanto antes, percebe que poderia usar as lentes dos óculos do personagem Pig. Ralph é um menino esperto, engenhoso e organizado, enquanto Jack que lidera o outro grupo é agressivo, claramente comodista, aproveitador, os momentos de tensão do filme começam quando Jack, precisando de fogo para assar um javali que seu grupo capturou invade o acampamento do grupo de Ralph, ofende e agride, deixando Pig apavorado exigindo que ele entregue seus óculos, o fogo simboliza a utilidade, um meio para um fim, o qual, quando usado de modo incorreto, se torna um fim em si mesmo.
  A seguir um dos garotos do grupo de Jack, “os caçadores”, durante a caça, separa-se do grupo e encontra alguém em uma caverna, que acredita ser um animal, um monstro, ataca o suposto monstro com sua lança, foge apavorado e conta aos seus amigos, que vão verificar e conseguem ouvir sons vindos da caverna, sons medonhos e passam a acreditar que devem temer esse monstro, colocam logo a baixo da caverna uma cabeça de javali, como uma espécie de proteção, ou advertência ou mesmo um presente. A existência de um monstro pode servir para explicar todo o processo vivido pelos meninos na ilha. Jack, manipulador, usa o monstro para poder trazer os outros garotos para o seu lado, em meio uma situação onde não existem adultos para manter regras e em uma selva que guarda muitos mistérios a existência de um ser que é desconhecido pela maioria, provoca medo e torna os outros influenciáveis e como Jack é quem incita a caça e demonstra força vence Ralph na preferencia dos meninos. Jack concluiu que existia um monstro na ilha e que eles deveriam temê-lo. No filme isto está bem exemplificado na hora que Jack tem a ideia de oferecer a cabeça do primeiro Javali caçado para o monstro, que moraria na caverna.
Nota-se que o grupo de Jack dedica grande parte do seu tempo confeccionando armas, e, acabam desenvolvendo ritos e realizam sacrifícios; em uma cena impressionante, ao redor de uma fogueira, os meninos agem de modo considerado bárbaro para apavorar Ralph e Pig que foram convidados para o “banquete” de javali. A cena mais chocante do filme acontece em seguida, quando Simon, após ir até a misteriosa caverna e verificar que o monstro era na verdade um homem é cruelmente atacado pelos meninos do grupo de Jack com suas afiadas lanças e morre de forma brutal, Simon poderia representar a fé e a religião, também devido aos diálogos protagonizados por ele em algumas cenas, no livro as personagens são mais expressivas, no filme destacam-se mais Ralph, Jack, Pig e os gêmeos Sam e Eric. O mais impressionante é que os meninos, “os caçadores” não demonstram remorso ou arrependimento diante do acontecido.
Os elementos externos, como a necessidade de sobrevivência em uma ilha, longe do que entendemos como civilização, ocasiona a mudança de comportamento dos garotos, tornam-se totalmente guiados pela natureza instintiva que os leva a cometer atos socialmente inaceitáveis em uma civilização. Devemos ressaltar o fato de Jack ter ido para a escola militar devido ao fato de ter “emprestado” o carro de um vizinho, revelando desvio de caráter do menino, o que de certo modo justifica o total desprezo desta personagem pelas regras, pela moral, pela ética e pelo bom convívio. Esses meninos, ao verem-se longe do que entendemos por civilização desrespeitam as leis que conheciam antes de chegar a ilha, com exceção do grupo de Ralph, inicialmente, e chegam até a matar uns aos outros. O medo do desconhecido faz com que o grupo de Ralph encolha, até que todos os meninos abandonem o grupo, até mesmo Sam e Eric, que poderiam representar as pessoas que são impressionáveis, e que tendem a não pensar por si mesmas, exceto Pig. A querela dos líderes (Ralph e Jack) no enfrentamento das adversidades, da busca pela sobrevivência é o ensejo dos conflitos e divisões.
 O filme é uma preciosidade para aulas de sociologia e filosofia, pois a partir da análise desta produção várias questões podem ser discutidas, democracia, fascismo, moral, ética, organização social, liderança, barbárie, limites, regras, socialização, o limiar do humano, do racional etc.
 “Se não pode com ele, una-se a ele” essa máxima fica evidente no filme quando todos abandonam Ralph. Ao procurar o acampamento de Jack, para tentar negociar a devolução dos óculos de Pig, Ralph em posse da concha, que simboliza que seria a sua vez de falar não tem sucesso e Jack despreza essa regra completamente rompendo os vínculos que o prenderiam a vida em sociedade e entra em um embate corporal com Ralph. Segue-se uma das cenas mais comoventes, a morte de Pig, cruelmente assassinado pelos amigos, que jogam uma pedra enorme em cima do menino enquanto este profere um discurso pretendendo buscar a harmonia entre eles, Pig poderia representar a ciência, a diplomacia, uma vez que ele age de modo lógico, diplomático. O Senhor das moscas é uma obra que se aprofunda em conceitos básicos para a formação humana, trata de um tema delicado que é a formação do caráter, da moral em relação às condições oferecidas para que a pessoa se mantenha dentro de parâmetros aceitáveis pela sociedade.
"O homem é o único ser capaz de fazer mal a seu semelhante pelo simples prazer de fazê-lo". (Schopenhauer) O que torna a história intensa não são apenas os conflitos que geram descontrole e morte, mas o fato de cada indivíduo travar uma guerra em seu interior contra os seus instintos mais primitivos que podem ser controlados vivendo sob a égide de regras morais rígidas, leis, e quando se tem um aparelho psíquico bem estruturado. Longe dos códigos que regulam a sociedade dos adultos, esses jovens concebem uma nova sociedade, alicerçada unicamente nos recursos naturais da ilha e em seus medos, limitações e fantasias.

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